Ou és cego, ou és estúpido: escolhe.



Serás cego, ou simplesmente estúpido? Longe de mim querer partir logo para os insultos, mas já cansa. Já me cansas. Tu e os teus devaneios de adolescente, apesar dos nossos tempos de adolescência já terem terminado há muito. É sempre, sempre assim. Esta mesma dança repetida, cujos passos já sei de cor. Vens ao meu encontro com esses teus olhos cheios de promessas e mistério. Lentamente, vais me consumindo os dias - um a um -, sem que eu sequer note. Enches-me os ouvidos e a cabeça com as tuas confissões; falas-me dos teus medos e dos teus sonhos - quando já os sei todos, de trás p’ra frente. Ao dar por mim, (re)habituei-me à tua presença como se nunca tivesses partido. Que até me esqueço que acabas por fazê-lo sempre. Nunca falhas. Aliás, só não falhas nisso; falhas em tudo o resto.


Sempre fui a tal que se apaixonara por todas as tuas cicatrizes, enquanto tu odiava-las por completo. Mas eu não era capaz de não gostar de cada uma delas, porque todas faziam parte de ti. E que ser lindo que tu eras - ainda és, hei-de sempre pensar isso. Por mais asneiras que faças. Por mais erros que cometas e partilhes de imediato comigo. E eles todos me magoam - um a um -, e eu nem sou capaz de to dizer. Talvez, quiçá, se o fizesse, tu parasses de uma vez. Quiçá, deixarias essa vida de nómada da noite; deixarias as outras e ficasses comigo. Ou então simplesmente afastar-te-ia de mim para sempre, quem sabe? Nunca saberei porque jamais teria a coragem de confessar-te o quanto me magoas. O quanto me continuas a magoar de cada vez que te aproximas. De cada vez que te abro esta porta desta casa que é o meu abraço, que nunca se fechou para ti. Mas tu nunca lhe deste o devido valor; nunca; jamais. Eu sou aquela que está sempre cá, não é verdade? Serei sempre aquela de quem mais precisas, mas nunca aquela que tu realmente queres.


E no entanto não consigo mandar-te embora. Não consigo cruzar estes meus braços, nem fechar-te esta porta, porque sei que, sem eles, ficarias perdido - mais do que imaginas, mas menos do que o suficiente para te fazer ficar.

Cansei-me de acreditar no "desta vez será diferente", quando o paleio é sempre igual. Cansei-me de sonhar com o dia em que simplesmente ficássemos juntos. Cansei-me de imaginar um futuro ao teu lado, quando nem no meu presente és certo de cá estar. Já me cansa, entendes? Espero que nunca te arrependas de todas as minhas oportunidades que deixaste escapar, como eu me arrependo de todas as que esgotei contigo. E também espero que nunca fiques preso, algures, a pensar no que poderíamos ter sido, se a tua preguiça e o teu medo de tentar não tivessem sido mais fortes do que tu.


Sempre soubeste que eu não era completa; dizias-me que também não o eras, e que não fazia mal, porque não era suposto sermos. Dizias-me que devíamos amar-nos nas peças que nos faltavam. E eu acreditava em ti, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Tanto tempo levei a aperceber-me no mais temível facto que toca a nós: sempre fomos impossíveis. Devíamos ter sabido melhor.

Sussurro-te um "amo-te" mudo pela última vez, enquanto te vejo partir de novo... Já nem sei quantas vezes foram; que terrível realidade. Mas para mim chega, e desta vez será diferente. Tem de ser. Cansada já eu estou de me esfolar; de me queimar só para te ver sorrir, quanto tu acabas sempre por me virar costas, nunca tendo coragem de encarar nenhuma das minhas lágrimas derramadas por ti.

2 mixed words:

  1. Está simplesmente fantástico, tal como todos os outros, continua assim pequena que vais longe ...
    Não sei como em quase todos os teus textos identifico-me sem ser preciso rele-los e isso é espectacular.
    Dás vida as coisas que sinto e nem tenho coragem de as escrever, és simplesmente fabulosa..

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    1. Fico muito feliz por isso, PRIINCESAREBELDE! :) Espero que continues a sentir-te desse jeito de cada vez que me lês... significa que nenhuma de nós está sozinha.

      Muita força e muito obrigada pelas lindíssimas palavras.

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LADY WRITER

Eu tenho um sonho. Um sonho que realizo todos os dias: escrever. Agora, também tenho um objectivo: ser escritora. Quiçá, um dia terei o meu nome em capas duras, espalhadas por prateleiras. Até à obra nascer, hei-de sonhar. CONTACTO: imdanierose@gmail.com