AMOR (E MEDO) EM TEMPOS DE GUERRA

Eu nem queria acreditar nas notícias, assim que acordei naquela manhã. Como de costume, uma enchente descontrolada de artigos por todas as redes sociais alertou-me para aquilo que se havia passado. “Mais um atentado”, pensei, e foi mesmo essa a parte pior: o facto de ter sido “mais” um. Não o primeiro e, iminentemente, não o último.

Impossível foi conter as voltas que me assolaram o estômago, assim que pensei em todos os conhecidos e amigos que tenho nesse país, naquela cidade. Felizmente, agora até já nos podemos declarar como ‘seguros’ através da rede social. Infelizmente, isso foi algo que se tornou necessário, porque lá está: foi “mais” um atentado, num grande centro, onde incontáveis pessoas inocentes passam, todos os dias. Desmedidamente destroçada fiquei ao saber que haviam vítimas mortais. As tais pessoas puramente inocentes que enveredavam por mais um dia, que, à partida seria igual a todos os outros, nunca mais voltariam a casa. Nunca mais veriam as suas famílias, ou os seus animais de estimação, ou os seus amigos. E, supostamente, era só mais um dia. Mas acabou por ser, afinal, “só mais um” atentado.

Sinceramente, fico cansada do típico discurso: “preocupam-se por ser Paris, mas não se preocuparam quando foi na Turquia”, por exemplo. Eu sei que quem o faz é com boas intenções, procurando apelar à atenção que deveria ser igualmente distribuída por todos os países afectados e por todas as respectivas vítimas. Mas parem. Parem com essas palavras semi-intriguistas, quando o problema é extremamente maior que esse. Parem de proclamar essa moral altruísta, como quem procura proteger os pequeninos. Porque acreditem: neste momento, seja em Bruxelas, seja noutro país qualquer… Nós somos todos pequeninos.

Nós, que nos encontramos atrás deste ecrã, enquanto bombas explodem além. Nós que não hesitamos em partilhar as notícias no nosso mural de Facebook, ou em expor lá as nossas opiniões sobre o que está a acontecer, desta forma tão desapegada e distante. (Até porque não podemos fazer mais nada que isso). Mas pronto, afinal, e por enquanto, está longe de nós. Atenção ao “por enquanto” e ao “longe”, e são importantes as aspas. 


Guerra. É isto que estamos a viver em pleno século XXI. Lembram-se das aulas de história do secundário, ou mesmo dantes, quando estudávamos a Primeira Grande Guerra, a Segunda e tantas outras? Estudávamo-las como se não passassem de estórias poeirentas, que decorávamos para passar nos testes. Agora, está a acontecer como que fora da nossa porta. E, desta vez, a prova em questão é a nossa própria sobrevivência. E bem-estar. E segurança. E todas essas coisas que continuamos a dar como garantidas, porque assim nos ensinaram; e assim nos habituámos. E é assim que tem de ser.

Quiçá, é por isso que nem tanta gente se preocupa como deveria. Com isto não quero dizer que devíamos todos erguer armas e mandar-nos à luta. Mas transtorna-me seriamente a despreocupação generalizada, que eu não sei se é derivada por uma estranha indiferença àquilo que se passa, ou se por medo de aceitar o facto de que, talvez, um dia, seremos nós a ser falados num livro de história, num outro tempo qualquer.

O que é que pode ser feito? Eu temo não saber. Mas atrevo-me a dizer que sei o que não deve ser feito. Como por exemplo, atribuir culpas à toa, só pela necessidade de termos um alvo fácil a apontar. Ou encarar os refugiados como se fossem uma praga, quando estes são pessoas iguais a nós, só que sem uma casa E quem nos disse que a nossa está em segurança? Um dia, quem sabe, seremos nós a ter de fugir. E aí, como vai ser?


Eu estou aterrorizada, porque sinto que é essa a única coisa que posso fazer: temer. Temer por mim e pelos meus. E pelos inocentes do mundo inteiro. E mais que isso: temo aquilo que esta guerra está a cultivar entre todos nós, que é o medo. Este medo intenso e absoluto de tudo e de todos. Esta desconfiança daquilo que nos é diferente ou estrangeiro. E esta onda de intolerância, em tempos de guerra, que é quando mais nos devemos tolerar uns aos outros. E ajudar-nos uns aos outros. E proteger-nos uns aos outros.

Eu estou aterrorizada, porque sempre fui a romântica, que se apaixonava em segredo pelos estranhos que via passar na rua. E pelos estranhos a ler nos autocarros e nos jardins. Eu tenho medo, porque a guerra está a tentar fazer-me temê-los a todos. E assim que todos começarmos a perder a capacidade de amar aquilo que (ainda) não conhecemos, os ‘outros’ vencem.

É isso mesmo que eles querem, afinal de contas. Separar-nos pelo medo. Fazer com que nos odiemos uns aos outros, por medo. E se há coisa que eu, ou tu podemos fazer, - e que é tão pouco - é não permitir que tal aconteça.

2 mixed words:

  1. Este mundo vai de mal a pior... =(
    Já não estamos seguros em nenhum lado do mundo..

    (Qual é a música do blogue? Adoro e não a conheço)

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    Respostas
    1. Descobri.
      Hans Zimmer - Day One
      Como sempre espectacular Hans Zimmer.

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LADY WRITER

Eu tenho um sonho. Um sonho que realizo todos os dias: escrever. Agora, também tenho um objectivo: ser escritora. Quiçá, um dia terei o meu nome em capas duras, espalhadas por prateleiras. Até à obra nascer, hei-de sonhar. CONTACTO: imdanierose@gmail.com