O DIA EM QUE ME ESQUECI DE TI


Nunca pensei que algum dia fosse escrever as palavras que se seguem. Nem nunca pensei que algum dia iria ter um conjunto de dias a que não chegasses; uns a seguir aos outros. Nem, muito menos, alguma vez pensei que, um dia, eu iria dar por mim, assim… Livre de ti; e livre em mim.

Quando um grande amor - como aquele que senti por ti - morre de nós, é como se tudo nos morresse. Deixamos de pertencer aonde quer que seja; deixamos de ser de nós mesmos; deixamos o mundo para trás. Afinal, onde poderia eu ir, se em nenhum lugar te encontraria? E porque quereria eu ser eu, se eu nunca fui o suficiente para te manter? E porque haveria eu de viver num mundo marcado pela tua presença e pela tua ausência, ao mesmo tempo?

Durante tantos anos - mais do que alguma vez poderei contar -, a única certeza da minha vida era esta: amar-te. Eu nem sabia fazer outra coisa, senão isso. Até voltava a bradar aos céus o quanto te amei e o quanto fiz por manter-te na minha vida, mas para quê? Já todo o mundo o sabe. E tu sempre o soubeste, também. E eu nunca quis escondê-lo: aliás, olhem para aquilo que escrevo. Tudo isso, tudo isto foi para ti. De mim para ti. E eu nunca o escondi, porque lá está: a única certeza que eu tinha era esta: amar-te. E escrever para ti. E todas aquelas palavras nunca haviam sido minhas, mas sim tuas. Sempre fora assim.


Por isso é que nunca pensei que algum dia aquele dia chegaria. O dia em que finalmente me apercebi que te esqueci. Não como uma lavagem cerebral, e muito menos como um ataque de amnésia. Eu simplesmente, sem dar conta, esqueci-me de me lembrar de ti. Algo que eu fazia espontaneamente, num acto tão normal como respirar. Algo que se tornara na única certeza que me despertava, todas as manhãs, e me embalava, todas as noites.

Até àquele dia, em que me esqueci. Nem sei dizer ao certo quando aconteceu. Se foi segunda, ou domingo. Se era tarde, ou madrugada. Não me lembro, porque foi um dia como todos os outros. Acordei e não te vi, como de costume. E, no entanto, foi diferente de tudo o que já conheci. Porque, pela primeira vez, eu não o passei com a esperança de te ver chegar. Nem de receber uma mensagem tua. O primeiro dia, depois de milhares, em que simplesmente não esperei por ti.

Quando um grande amor - como aquele que senti por ti - nos parte, esse alguém não parte de imediato. Porque nós não deixamos. Agarramo-nos àquilo que resta, ao quase nada que fica para trás. Aos lugares onde se partilharam momentos; às histórias que passam a memórias; às palavras que deixaram de valer o que quer que fosse e… nada mais. Eu agarrei-me a tudo isso com unhas e dentes, porque não conseguia conceber uma realidade sem ti. Tu era-la toda. Tu eras-me tudo.


Por isso é que nunca pensei que aquele dia chegasse: o dia em que te esqueci. O dia em que me apercebi que aquele homem a quem eu escrevia todos os meus textos; a quem eu chorei todas as minhas lágrimas; a quem eu concedi todas as minhas oportunidades, e a quem eu dediquei tanto do meu tempo, não era mais merecedor de nenhuma dessas coisas. Não por ele ser um mau homem, - porque eu jamais pensaria isso de ti -, mas sim por ambos merecermos melhor.

Nunca pensei escrever estas palavras que se seguem. Eu adoro que sejas feliz sem mim. E eu adoro ser feliz sem ti. Eu adoro que ambos tenhamos conseguido sobreviver à perda um do outro. Eu adoro o futuro que nos aguarda, e adoro o passado que partilharemos, para sempre, os dois.

E o passado é lindo onde pertence: no passado. Obrigada por me teres concedido um assim.

2 mixed words:

  1. A questão é : tu no fundo, mas bem lá no fundo sentes o que escreveste?

    Mais um texto maravilhoso Daniela, mas indirectamente dirigiste-lhe de novo as palavras.

    Bjim

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    1. A resposta é: eu senti imenso aquilo que escrevi. :) Na verdade, foi mais uma introspecção minha, de forma a 'demonstrar' que, na verdade, será sempre impossível esqueceres-te por completo de alguém que significou tanto. No entanto, é sim possível, esqueceres-te, por momentos, disso mesmo. Seguir em frente é a única coisa certa de acontecer, se bem que o passado deverá sempre ser respeitado - tal como as pessoas que farão sempre parte dele.

      Um beijinho enorme!

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LADY WRITER

Eu tenho um sonho. Um sonho que realizo todos os dias: escrever. Agora, também tenho um objectivo: ser escritora. Quiçá, um dia terei o meu nome em capas duras, espalhadas por prateleiras. Até à obra nascer, hei-de sonhar. CONTACTO: imdanierose@gmail.com