AOS HOMENS QUE [ME] ESCAPARAM.


Há verdades mais difíceis de aceitar do que outras. Digamos que uma das coisas mais dolorosas que tive de admitir a mim mesma, há alguns anos atrás, foi esta: eu não sei estar sozinha. Não no sentido de andar por aí a pular de relacionamento em relacionamento (não que isso seja mau, mas não é o meu caso). Mas dava por mim a enveredar constantemente em histórias e em cenas, que quase se atropelavam umas nas outras.

Eu apercebi-me que não sabia estar sozinha, numa altura em que o meu estado emocional estava mais instável que qualquer outra coisa. O meu passado estava longe de resolvido e, no entanto, eu fazia questão de confundir ainda mais o meu presente. Negava a confusão da minha vida, proclamando estar apenas “emocionalmente indisponível”. Era mentira. Eu não estava indisponível nem coisa nenhuma: eu estava simplesmente um caco. Um autêntico caco.

Dei por mim a conhecer um homem que acabara de sair de uma relação duradoura. E eu invejava-o por imensas razões: a primeira, porque eu nunca soubera sequer o que era ter um relacionamento que durasse. A segunda, por ele parecer tão mais seguro e pacato do que eu, que já estava solteira há sabe-se lá quanto tempo. Lembro-me de perguntar-lhe incontáveis vezes como é que ele o fizera. Como é que ele conseguira escapar impune a tantos anos de amor, tão depressa. E ele dizia-me sempre: que temos de aceitar que, na vida, coisas acabam para que outras melhores surjam. Como se fosse tão fácil assim.


Esse homem teve um papel primordial na minha vida, apesar de nunca termos chegado a ter, nem uma história de amor, nem nada que se parecesse com uma relação séria. Lá está: a minha vida já há muito que se tornara numa sucessão de cenas casuais, que duravam dois meses no máximo. Com esse homem, tal não foi excepção. E, no entanto, cruzar-me com ele apresentou-me a uma das verdades mais dolorosas que eu alguma vez tive de enfrentar: que eu não sei, nem quero estar sozinha. Seja de que maneira for.

Escusado será dizer que aconteceu aquilo que acontece (quase) sempre: acabei por magoá-lo, quando ele não o merecia de todo. No que toca às ‘falsas esperanças’, a história complica-se, porque existirão sempre dois lados em confronto e que nunca entrarão em concordância. O meu, que defendia o meu lado; que sempre lhe avisei que não queria “nada mais do que aquilo”, entre outras conversas vagas e sinais mal entendidos. E o dele, que defendia o seu lado; que sempre me tratou como eu merecia e que sempre me tentou mostrar que, juntos, poderíamos ser felizes.

No meio de todo esse desgrenhado de emoções, ao mesmo tempo, eu estava a lidar com as consequências colossais de um passado por resolver. De um relacionamento - se é que pode ser chamado disso - que nunca terminara como deveria ser. Agora que penso nisso, trata-se de mais uma típica desculpa esfarrapada. “Acabar como deve ser” é uma conversa da treta, na verdade. As coisas quando terminam, seja como for, aconteceram assim porque assim tinha de ser. E ponto! Mas lá está: eu não conseguia conceber essa realidade, porque eu tinha pavor a estar sozinha. E admitir a mim mesma que existem laços que se rompem para sempre, seria o mesmo que admitir que, um dia, eu iria ficar derradeiramente só. (Dramático demais, não é?)


Magoei um homem que não merecia. E na altura em que deveria ter sido a mulher forte e enfrentá-lo, acabei por evitá-lo que nem uma cobarde. É tão assustador ter alguém apaixonado por nós, sem que o consigamos corresponder. E já há muito que a minha vida se tornara nisso mesmo: numa sucessão de cenas casuais, com homens genuinamente bons, mas que pareciam nunca evoluir para “mais nada do que isso”. Ora aí está outra verdade trágica que tive de aceitar: eu não consigo apaixonar-me por ninguém, simplesmente. (E o que é que há de simples nisto?…)

Talvez não seja assim para sempre - eu gosto de acreditar que não. Não me interpretem mal: eu adoro estar apaixonada. Mas, por algum motivo, toda essa adoração nunca passou da teoria. Já estive apaixonada, sim, mas não tantas vezes como gostaria. E não tão fortemente como seria suposto. Quiçá, dei tudo de mim nesse passado longínquo, que sempre usei como desculpa pelos meus actos sem sentido. Quiçá, nunca me cruzei com a pessoa certa, porque insisto em permanecer nos sítios errados. Quiçá, tornei-me na cínica que sempre repulsei. Mas lá está: não passam de teorias. E o amor não tem absolutamente nada de teórico.

Não me interpretem mal, mas eu não vejo o sentido em pedir desculpa às ‘vítimas’ do meu vendaval emocional, e sabem porquê? Porque elas estão bem melhor sem mim. E, agora que penso nisso, essa é a pior verdade de todas.

3 mixed words:

  1. Olá Daniela, eu escrevi um pequeno texto e gosta muito que o avaliasses, mas não quero mostrar quem sou... publico mesmo aqui? Ou como faço?
    Já agora amo o teu trabalho!! Continua!

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    1. Ou envias para o e-mail que está disponibilizado aqui embaixo, ou então podes publicá-lo mesmo por aqui. :) Muito obrigada e força com tudo. *

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    2. "São exatamente 00.50h e eu estou deitada na minha cama, chorando, pensando e me magoando mais uma vez.
      É isso que acontece quando se ama não é? Magoamo-nos para não magoar o outro certo? Talvez, mas eu agora só sinto vontade de chorar, vontade de gritar, vontade de dizer acabou e sabes o pq de não o dizer? Porque tenho medo, medo de tu seres o tal e eu te deixar escapar, medo que não percebas o pq e penses que eu nunca te amei, medo que eu sofra ainda mais com outro.
      Neste momento escorre-me uma lágrima pela cara e eu continuo escrevendo com os olhos cheios de mais lágrimas prontas a cair, mas elas apenas caiem uma a uma para que eu as possa contar e ao mesmo tempo enumerar a quantidade de vezes que chorei desta mesma forma, desta forma triste quase desesperada, continuo deitada e sozinha a espera que alguma coisa aconteça e então é aí que a última lágrima cai. Coloco um sorri e penso "amanhã é outro dia", mas não é, amanhã é um dia igual a este, amanhã vou repetir tudo aquilo que disse hoje, tudo o que tenho dito desde sempre.
      Hoje não é o dia, esse dia chegará, mas até lá vou continuar a perder dias."

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LADY WRITER

Eu tenho um sonho. Um sonho que realizo todos os dias: escrever. Agora, também tenho um objectivo: ser escritora. Quiçá, um dia terei o meu nome em capas duras, espalhadas por prateleiras. Até à obra nascer, hei-de sonhar. CONTACTO: imdanierose@gmail.com