Os opostos (des)atraem-se.


Nunca concordávamos com nada. E eu nunca percebi bem se era simplesmente por termos opiniões diferentes, ou se era só para nos irritarmos um ao outro. Até nas coisas mais pequeninas e ridículas... Como o facto de eu meter açúcar no café. Algo tão insignificante, mas que te irritava completamente. “Meter açúcar no café é mudar a sua essência”, dizias-me tu, “Nem digas que gostas de café”. Sempre a mesma coisa; e eu já nem ligava. Fazia a coisa à minha maneira e pronto. Quando dei por mim, essa atitude já não se aplicava apenas à forma como eu bebia o meu café.

Sempre fui aquele tipo de pessoa que, quando nota algo de errado, precisa de falar sobre o assunto. Discuti-lo até à exaustão, se for preciso. Tu nunca pensaras assim. Evitavas as discussões como eu fujo de baratas. E tu dizias-me: “Paciência! É só um bicho que não te faz mal”. E eu respondia-te: “Então e eu? Faço-te mal? Porque é que foges de mim?”.

Era impressionante a forma como não nos entendíamos. Eu achava a tua lista de prioridades ridícula. Tu achavas a minha também. E deixavas-me sempre – todas as vezes – a discutir para o silêncio que tu optavas por ser de livre vontade. E enquanto eu te ia atirando bruscamente com tudo aquilo que tu não querias ouvir, tu fechavas-te. E fechavas-te, cada vez mais – vez após vez. Nem sei em que dia é que aconteceu... Mas deixei de te ver por completo.


E depois eu perguntava-te: “Sempre fomos assim? Ou algo mudou?”. Tu encolhias os ombros, como quem diz: “Não sei... E que interessa?”. Dia após dia, o nosso amor mais parecia um campo de batalha – um contra o outro. Ambos sabíamos disso. Ambos sabíamos também que, daquela guerra, nenhum sairia vencedor. E, mesmo assim, continuávamos, feitos estúpidos. E era mesmo isso que éramos e muito.

Lembro-me de quando fiquei um fim-de-semana inteiro sem saber de ti. Nem te procurei, ou vice versa. E o quanto me apercebi que, apesar de tudo isso, me fazias tanta falta. Até das discussões triviais senti saudades. Da forma como nos irritávamos um ao outro. Lembro-me quando voltaste e eu abracei-te com tanta força... E tu devolveste-me o abraço com o mesmo sentimento. E ora aí está: esse estava lá sempre. De todas as vezes que me dizias “estás a ser parva”; ou quando eu te dizia “escuta-me, anormal”, o amor estava sempre lá bem concedido em cada sílaba. Tínhamos tanto para dar um ao outro... que nem sabíamos como lidar com isso mesmo.

Éramos perfeitos opostos, na verdade. Sempre soubemos disso. Eu dizia-te: “os opostos atraem-se, segundo se ouve por aí”. E tu dizias-me: “mas há opostos que não se conseguem fundir por mais que tentem, tipo azeite e água”. Tinhas sempre um “mas” para tudo – outra coisa que me danava profundamente. Eras capaz de dizer coisas do género: “eu amo-te, mas preciso de espaço”; “eu amo-te, mas não sei o que fazer”; “eu amo-te, mas não te entendo”. E, de todas essas vezes, eu deixava-me ficar pelo facto que me amavas. E que isso era o que contava. Talvez foi aí que falhámos. Em achar que o amor seria suficiente para nos juntar, quando não podíamos ser peças mais diferentes. Seríamos sequer do mesmo puzzle?


No nosso último dia, fui ao teu encontro com as últimas palavras que te tinha a dizer a rebentarem-me na cabeça. Decorei-as, uma a uma. Mas, ao chegar ao pé de ti, calei-me como nunca o fizera. E tu bem sabias que eu tinha sempre tanto a dizer... Silêncio. E, aí, tu percebeste. Nem foi preciso dizer nada. Até às palavras se haviam esgotado para nós. E tu falaste. Perguntaste-me se tinha mesmo de ser assim. Nem te respondi. Ambos sabíamos que era o fim a bater-nos à porta para levar tudo consigo.

Nunca concordávamos com nada. Nem sequer no nosso fim. Sempre encaraste a minha decisão como a forma que eu metia açúcar no café. Sempre acreditaste que também eu estava a tentar mudar a tua essência; tentando fazer com que falasses; com que te abrisses; com que ficasses mais doce. Mas eu amava-te no teu amargo e no teu silêncio, por mais que me magoassem. Infelizmente, apercebi-me que não podia continuar a amar-te, quando comecei a amar-me a mim própria. Tive de escolher e fui egoísta, pela primeira vez na minha vida. Se me arrependo? Ainda não descobri.

Talvez seja verdade que os opostos atraem-se... Só para, mais tarde, se destruírem um ao outro.

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LADY WRITER

Eu tenho um sonho. Um sonho que realizo todos os dias: escrever. Agora, também tenho um objectivo: ser escritora. Quiçá, um dia terei o meu nome em capas duras, espalhadas por prateleiras. Até à obra nascer, hei-de sonhar. CONTACTO: imdanierose@gmail.com